De minhas irmãs,
Às vezes o pecado é do querer.
Quis tanto daquela mulher:
Seu corpo coberto por roupa macia
de tecido fabricado, cotidiano.
Quis dela que o carinho viesse,
uma mão, assim, querida e leve.
A carne meiga e o gesto flácido.
Quis que se despejasse !
A tão simples carícia
sobre meus ombros nervosos
Como cascata que se deixa deslizar
Encharcando de água e limo
os ossos duros ,
os esconderijos da carne.
Às vezes o pecado é do querer.
Quis tanto daquela mulher:
a evidente cumplicidade dos lençóis rotos
das manhãs comuns e corriqueiras.
O sol lambendo morno seu corpo moroso
a se arrastar para o dia.
Dias de trabalho e noites de ócio
Os meus braços a carregar
O seu cansaço de sangue
Quis tanto!
E do pecado do querer
não deixei que colhesse
a sua última maçã.
Perdeu-se em uma rua faiscante,
nos encantos ocos da noite.
E eu a matei…
Foi-se o corpo ao mar.
E choro sua vida póstuma:
a pérola estagnada
nas entranhas de uma ostra .
[…]
- Pode ser, mas… suponhamos. Eu já vivi isso. E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom pra você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas tem cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene e qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.[…]
Caio Fernando Abreu - Pela noite (via mathdvision)
(reblogando um fragmento magnífico para um diálogo de um pai para com uma órfã, ignóbil por natureza, na tentativa de manter a coragem inicial de minha imprudência)
Pequena crítica suada de um amante marginal, escrita em guardanapo de papel úmido de cerveja, no meio da noite, enquanto Maria repousa suas densidades de feijão, nuas e satisfeitas.
É enfadonha essa insistência sexual de certa literatura pelo belo asséptico: as carnes brancas e firmes dos príncipes e princesas dos estúdios Disney, a palidez dos corpos, os movimentos lustrosos de corpos sempre esguios, as peles de seda, a pouca idade dos toques e o gozo translúcido… Ah, esse ascetismo cristão!
- O amor virtuoso?
Não. Há o corpo do velho de noventa anos apaixonado pela graciosa, cansada e já também envelhecida quase puta de quatorze que veio nos salvar dessa devoção sem sabor! Há ainda mais… Há os corpos das fomes, tísicos, os corpos das misérias e que também se amam… Há ainda mais…
E por que não? E por que não as graxas? Os suores gordos? Os pesos e os pêlos? As carnes moles e cansadas? A pele seca, rota, macerada? Os cheiros dos bares, puteiros, do mijo que resta na cueca ou na calcinha feminina? O cheiro da comida ainda no dente? O cú? O que há com o cú para que o rejeitemos!? E o que há com a merda do amor, que dela não pode nada ser dito? E por que a merda não pode fazer parte do gozo? Por que mancha os lençóis de linho branco da falácia que se quer do amor?
O que houve com os animais que gemem e berram na noite escura? O que houve com a morte prenhe dos sentidos que na loucura, para além da língua, desfalece o corpo no gozo? O que houve com o gozo? Com o gosto azedo-doce nauseante do gozo… E a explosão dos cheiros interiores que é a prova espessa de que o amor não é apenas uma alegoria feita de flores?
Ah, não é toda literatura que se limpa em desconforto culposo, criminoso… Junto desta que, neste caso da coisa viva, envergonha, há aquela que engravida com sua tumescência teimosa àqueles que gemem até que, no tremor das pernas, esvaem-se esputados no odor de suas entranhas.
Miniconto.
Homenagem à Marguerite Duras:
Ela. A mulher da história.
